In:

Enquanto a palavra não vem

Deixo- os na companhia desse lindo poema da Cecilia, enquanto as palavras insistem em se esconder.

In:

Tu tens um medo

Acabar.

Não vês que acabas todo o dia.

Que morres no amor.

Na tristeza.

Na dúvida.

No desejo.

Que te renovas todo dia.

No amor.

Na tristeza

Na dúvida.

No desejo.

Que és sempre outro.

Que és sempre o mesmo.

Que morrerás por idades imensas.

Até não teres medo de morrer.

E então serás eterno.

Não ames como os homens amam.

Não ames com amor.

Ama sem amor.

Ama sem querer.

Ama sem sentir.

Ama como se fosses outro.

Como se fosses amar.

Sem esperar.

Tão separado do que ama, em ti,

Que não te inquiete

Se o amor leva à felicidade,

Se leva à morte,

Se leva a algum destino.

Se te leva.

E se vai, ele mesmo...

Não faças de ti

Um sonho a realizar.

Vai.

Sem caminho marcado.

Tu és o de todos os caminhos.

Sê apenas uma presença.

Invisível presença silenciosa.

Todas as coisas esperam a luz,

Sem dizerem que a esperam.

Sem saberem que existe.

Todas as coisas esperarão por ti,

Sem te falarem.

Sem lhes falares.

Sê o que renuncia

Altamente:

Sem tristeza da tua renúncia!

Sem orgulho da tua renúncia!

Abre as tuas mãos sobre o infinito.

E não deixes ficar de ti

Nem esse último gesto!

O que tu viste amargo,

Doloroso,

Difícil,

O que tu viste inútil

Foi o que viram os teus olhos

Humanos,

Esquecidos...

Enganados...

No momento da tua renúncia

Estende sobre a vida

Os teus olhos

E tu verás o que vias:

Mas tu verás melhor...

... E tudo que era efêmero

se desfez.

E ficaste só tu, que é eterno.



Cecília Meireles

In:

24anos em um dia

Tenho 24 sonhos para acreditar

24 amigos a conhecer

24 flores para te dar


24 caminhos a  andar

Num dia aonde 24 horas
não cessam em passar.




In:

Partida

Eis a hora meu amor
O celular despertou e me

avisou

os ponteiros do relógio
me desapontam.

Será alguma brincadeira, do tempo

do mestre das horas?
aumentando o peso dos dias.


meu silêncio grita,
sou eu a te chamar,
não escutas?



Não te ver logo agora


Adeus, é hora de ir.

In:

A Flor

Penso que cultivo tensões
como flores
num bosque onde
ninguém vai

Cada ferida - perfeita-,
fecha-se numa minúscula
imperceptível pétala,
causando dor.

Dor é uma flor como aquela,
como esta,
como aquela,
como esta


Robert Creeley (A Um, Poermas)

In:

Praça da Matriz

Eu queria te beijar no meio da praça
Em meio aos pombos agitados

Atravessando os carrinhos de pipoca, os passantes
os casais.

Mas espero em silêncio
As mariposas voarem
E o tempo vagaroso,
chegar aqui.

In:

Receita

È preciso pintar as paredes,
com polém, violeta, anil, carmim

Trocar os lenções,
cobrir de verde o colchão

Esvaziar os armários,
jogar fora os papéis, calendários, as lembranças

È preciso concentrar-se nos dias,
fazer o chá de alecrim, erva-cidreira ou hortelã

Retirar o açucar

Amar sem culpa

In:

Olhar

Meu olhar é condição

É céu estrelado

ao te ver passar.

É seu.

In:

Florzinha Feliz

Deu-me a flor
Como quem presenteia o melhor amigo
Como quem beija os lábios, em arrepio
Como quem vagueia paisagens azuis

Deu-me a  flor
Como quem dispara um grito
Como quem abre um sorriso
Como quem vem a dar

a mais linda flor
que me sorri.

In:

Mais uma noite

O vento pousa

nas pedras

doce relento


A mente percorre

a noite

meu pensamento